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Por que a gordura abdominal aumenta mesmo quando o peso não muda?

Por Mercedes Ziani, nutricionista clínica funcional

gordura localizada

Introdução

Existe uma situação que muitas mulheres descrevem de forma muito parecida durante a consulta.

Elas olham para o próprio corpo e percebem que a região inferior do abdômen parece diferente. As roupas deixam de vestir como antes, a cintura parece menos definida e a sensação é de que a barriga aumentou, mesmo sem uma mudança importante no peso.

A primeira reação costuma ser procurar uma explicação imediata.

"Será que foi aquele pão que comi à noite?"

"Será que estou mais inchada?"

"Será que é apenas prisão de ventre?"

Embora essas situações realmente possam causar distensão abdominal temporária, muitas vezes existe outra mudança acontecendo.

A gordura abdominal nem sempre surge de forma repentina. Em muitos casos, ela representa uma resposta gradual do metabolismo a alterações que vêm acontecendo ao longo dos anos.

E compreender esses fatores costuma ser mais útil do que simplesmente procurar uma nova estratégia alimentar.

A gordura abdominal é apenas gordura?

Nem todo aumento do volume abdominal significa acúmulo de gordura.

Distensão causada por gases, constipação intestinal, retenção de líquidos e alterações digestivas podem modificar temporariamente o formato do abdômen. Por isso, antes de qualquer intervenção, é importante compreender o que realmente está acontecendo.

Quando existe aumento do tecido adiposo, também é necessário entender que nem toda gordura apresenta o mesmo comportamento.

A gordura marrom possui importante função na produção de calor e no gasto energético, enquanto a gordura branca atua principalmente como reserva de energia.

Dentro da própria gordura branca existem diferentes locais de armazenamento.

A gordura localizada abaixo da pele — chamada de gordura subcutânea — faz parte da composição corporal normal. Já a gordura visceral, localizada ao redor dos órgãos internos, está mais fortemente associada ao aumento do risco cardiometabólico, incluindo resistência à insulina, doença hepática gordurosa associada ao metabolismo (esteatose hepática metabólica) e doenças cardiovasculares.

Por esse motivo, compreender a qualidade e a distribuição da gordura corporal costuma ser mais importante do que observar apenas o número mostrado pela balança.

O papel da composição corporal

Ao longo do envelhecimento ocorre, naturalmente, uma redução progressiva da massa muscular, processo conhecido como sarcopenia.

Embora faça parte da fisiologia humana, sua velocidade pode ser influenciada por diversos fatores, especialmente prática de exercícios de força, ingestão adequada de proteínas, qualidade do sono e nível de atividade física ao longo da vida.

A massa muscular exerce papel fundamental na saúde metabólica.

Além de permitir movimentos, equilíbrio e independência funcional, ela representa um tecido altamente ativo do ponto de vista metabólico, consumindo energia continuamente.

Quando ocorre perda de massa muscular associada ao aumento do tecido adiposo, a composição corporal se modifica, mesmo que o peso permaneça praticamente o mesmo.

É justamente por isso que duas mulheres podem pesar exatamente igual e, ainda assim, apresentarem corpos completamente diferentes.

Alterações hormonais

Outro fator importante é a transição hormonal feminina.

Durante a perimenopausa, período que antecede a menopausa, ocorre uma redução progressiva da produção de estrogênio acompanhada por oscilações hormonais características dessa fase.

Essas alterações estão associadas a uma redistribuição da gordura corporal, favorecendo maior deposição de gordura na região abdominal, especialmente na gordura visceral.

Além disso, muitas mulheres percebem alterações no sono, maior retenção de líquidos, mudanças na composição corporal e redução gradual da massa muscular, fatores que podem contribuir para a sensação de que o metabolismo deixou de responder como antes.

Por esse motivo, muitas mudanças observadas no abdômen não acontecem apenas por uma questão alimentar, mas refletem adaptações fisiológicas próprias dessa fase da vida.

Sono, estresse e rotina moderna

O metabolismo também responde continuamente ao ambiente em que está inserido.

Privação de sono, estresse crônico, alimentação desorganizada, sedentarismo e longos períodos de sobrecarga física ou emocional podem influenciar diversos mecanismos relacionados ao controle do apetite, à sensibilidade à insulina, ao comportamento alimentar e à composição corporal.

Nenhum desses fatores, isoladamente, explica o aumento da gordura abdominal.

Entretanto, quando permanecem presentes durante anos, eles podem contribuir para um ambiente metabólico menos favorável.

Por isso, muitas vezes, o acúmulo de gordura abdominal representa o resultado de diversos estímulos repetidos ao longo do tempo, e não de um único alimento consumido ocasionalmente.

Por que duas mulheres com o mesmo peso apresentam abdômens diferentes?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes quando falamos em metabolismo feminino.

Duas mulheres podem apresentar exatamente o mesmo peso corporal e, ainda assim, terem composições corporais completamente diferentes.

Uma pode apresentar maior quantidade de massa muscular, menor gordura visceral, boa qualidade do sono, alimentação equilibrada e prática regular de atividade física.

Outra pode apresentar menor massa muscular, maior quantidade de gordura visceral, histórico de noites mal dormidas, sedentarismo e elevado nível de estresse.

Na balança, o número pode ser semelhante.

Metabolicamente, porém, esses organismos respondem de maneira completamente diferente.

É por isso que compreender apenas o peso corporal raramente é suficiente.

A verdadeira diferença costuma estar na composição corporal, na distribuição da gordura e no contexto metabólico construído ao longo da vida.

Considerações finais

Quando a gordura abdominal aumenta, a primeira vontade costuma ser procurar uma solução rápida.

Entretanto, antes de pensar em novas estratégias alimentares, considero mais importante compreender por que esse metabolismo passou a responder dessa forma.

Avaliar hábitos alimentares, composição corporal, histórico clínico, exames laboratoriais, qualidade do sono, níveis de estresse e as diferentes fases da vida da mulher permite uma compreensão muito mais ampla do que está acontecendo.

Na prática clínica, uma das maiores lições é justamente esta: duas mulheres podem apresentar a mesma queixa e ter causas completamente diferentes por trás dela.

Por isso, acredito que investigar o contexto metabólico antes de intervir torna a estratégia nutricional mais individualizada, mais coerente e mais compatível com a fisiologia feminina.

Cada mulher possui uma resposta metabólica própria.

E a alimentação precisa respeitar essa individualidade.

Referências
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